Roberto jogou o celular na mesa de madeira do café, a tela ainda brilhando com um gráfico vermelho sangue. “Eu desisto,” ele disse, esfregando as têmporas. “Comprei aquela moeda que promete revolucionar a logística de bananas na Indonésia porque um influencer disse que era o ‘próximo Bitcoin’. Caiu 90%. Por que a gente não compra só o Bitcoin e vai dormir tranquilo?” Essa cena, que aconteceu comigo na semana passada, resume a crise existencial de quase todo investidor que sobrevive ao seu primeiro ciclo de alta e baixa. A pergunta do Roberto é a mais honesta possível: afinal, o Bitcoin é o único protagonista desse filme ou estamos ignorando o elenco de apoio? Para entender isso, precisamos sair da teoria e olhar para a mecânica da coisa. Imagine o Bitcoin não como uma tecnologia de pagamento, mas como uma âncora. Quando o mercado financeiro global treme, quando bancos regionais nos EUA quebram ou quando a inflação sai de controle na Argentina, o capital não corre para a “moeda da logística de bananas”. Ele corre para a segurança.
O Bitcoin se tornou, organicamente, o padrão ouro digital. A genialidade do Bitcoin, e o motivo pelo qual muitos maximalistas dizem que “só ele importa”, reside na sua ossificação. Ele é lento de propósito. É difícil de mudar de propósito. Não tem um escritório central, um CEO para ser intimado pela SEC ou uma equipe de marketing prometendo atualizações trimestrais. Essa imutabilidade é o produto. Ninguém quer guardar suas economias de uma vida inteira em um protocolo que muda as regras do jogo a cada seis meses porque os desenvolvedores tiveram uma nova ideia brilhante. No entanto, dizer que apenas o Bitcoin importa é como dizer que, porque o ouro é valioso, não precisamos de petróleo, aço ou eletricidade. Aqui entra o “Ou Não” do título. Enquanto explicava isso para o Roberto, abri o laptop e mostrei a rede Ethereum. O Bitcoin é uma calculadora soberana; o Ethereum é um computador mundial. Se você quer apenas preservar riqueza fora do sistema fiduciário, o Bitcoin vence. Mas se você quer fazer algo com esse dinheiro — emprestar sem intermediários, criar derivativos, negociar arte digital ou construir organizações autônomas — o Bitcoin, em sua camada base, é surdo e mudo. Ele apenas “é”. A inovação real, aquela que assusta os bancos centrais pela utilidade e não apenas pela reserva de valor, acontece fora do Bitcoin. Estamos falando de finanças descentralizadas (DeFi) e tokenização de ativos reais (RWA). Ignorar o Ethereum, ou concorrentes ágeis como a Solana, é fechar os olhos para a infraestrutura que está sendo construída sobre a internet. É negar a utilidade do software em favor da segurança do cofre. Mas há uma armadilha cruel aqui, na qual o Roberto caiu. O mercado de cripto é composto, grosso modo, por três categorias: o Bitcoin (o rei), as plataformas de contratos inteligentes (como Ethereum, que são o sistema operacional) e o resto, que eu chamo carinhosamente de “cassino 24 horas”. Para quem está começando, a volatilidade das altcoins (qualquer coisa que não seja Bitcoin) é sedutora. Você vê ganhos de 1.000% e acha que o BTC, com seus movimentos “lentos” de 5% ao dia, é coisa de velho. O problema é a liquidez. Quando o pânico se instala, a liquidez das altcoins seca instantaneamente. Você tenta vender e não tem comprador. O Bitcoin, por outro lado, tem liquidez comparável a grandes ativos tradicionais.